Profa. Dra. Airan dos Santos Borges

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A Profa. Dra. Airan dos Santos Borges, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, campus CERES, é a nossa entrevistada de hoje.

MAAT – Núcleo de Estudo de História Antiga: Profa. Airan, obrigado por nos conceder essa entrevista. No seu texto de apresentação/identificação no sítio do CNPq – CV Lattes, a senhora posiciona-se politicamente quanto ao governo de Michel Temer. Aproveitamos, então, sua menção à atual conjuntura política no Brasil para lhe perguntar qual a sua opinião quanto ao desejo do Governo Federal de reformar o ensino de História na Base Nacional Comum Curricular.

Dra. Airan dos Santos: Antes de responder eu gostaria de agradecer imensamente o convite e de poder, a partir desta conversa informal, entabular um primeiro contato com o MAAT.

Bem, essa é uma excelente e importante pergunta. Eu sou frontalmente contra a reforma proposta pelo atual governo federal, sobretudo por considerar que o projeto representa um retrocesso no tocante ao acesso, oferta e à qualidade do Ensino ofertado (tanto no Ensino Básico através da Base, como na nova proposta do Ensino Médio). Todavia, penso que os dois projetos (da Base Curricular e do Novo Ensino Médio) serviram para provocar uma discussão nas Universidades e Associações de Pesquisa e Docência que há muito eu não via. De fato, desde minha licenciatura (concluída em 2007), talvez um dos “calcanhares de Aquiles” da academia que eu mais percebia era o pouco ou difícil diálogo com a Educação Básica. Muito embora seja possível observar nos últimos 15 ou 20 anos um interesse significativo na elaboração de livros didáticos entre professores universitários (refiro-me às belíssimas coleções assinadas pelos professores Ronaldo Vainfas, Sheila de Castro Farias, Keila Grinberg, Ana Maria Machado, dentre outros), as mudanças que observamos com o PNLD, com a elaboração de coleções mais atualizadas ainda são pontuais – se considerarmos o real impacto desses projetos na construção de uma consciência histórica nas novas gerações.

MAAT: Seu doutorado em História Comparada é recente, defendido em 2016 na UFRJ, cujo título é “A construção da Paisagem Imperial nas cidades da Lusitânia: um estudo comparado das formas de integração das elites provinciais entre os séculos I a. C. e III d.C.”. A senhora poderia nos falar um pouco da temática abordada em sua tese?

Dra. Airan dos Santos Borges: O objetivo fundamental da investigação consistiu em analisar a construção da paisagem imperial na província da Lusitânia (na atual Península Ibérica) a partir do estudo comparativo das formas de integração da elite provincial entre os séculos I a. C. e III d. C. Nesse sentido, defendi que o processo de integração da região foi desenvolvido de modo progressivo e gradual, cujo início pode ser definido em fins do II século a. C. e cuja fase de consolidação se deu entre os séculos I e início do III d. C. Tendo em vista esta delimitação, observei as especificidades que distinguem a cultura política desenvolvida no mundo provincial, sobretudo, os ajustes entre as configurações sociais regionais tradicionais e as novas relações trazidas pela dinâmica imperial a partir do estudo da produção epigráfica.

MAAT: A Senhora é doutora em História Comparada. Poderia nos explicar, resumidamente, como se apresenta História Comparada no Brasil?

Dra. Airan dos Santos Borges: O Programa de Pós-Graduação em História Comparada da UFRJ é único no Brasil (se não me engano), sendo criado em 2002. A área de concentração do programa rememora pesquisadores como Detienne, Pirenne, Bloch, Kocka, Veyne, Maier, dentre outros. E tem como meta abrigar e desenvolver pesquisas históricas que adotem uma das diversas abordagens comparativas como eixo central das pesquisas. Mas, é claro que a comparação, como método de análise, pode estar presente em diversas abordagens teóricas. O mais interessante da abordagem do programa, em minha opinião, consiste em viabilizar um espaço de experimentação que nos permite colocar em perspectivas experiências distintas e, a partir destas, estimular outros olhares epistemológicos.

Muito embora minha perspectiva teórica tenha mudado ao longo dos últimos anos, minha escolha pelo programa adveio do interesse em estudar o Império Romano sob a ótica desenvolvida, à época, pela Professora Norma Musco Mendes. Então vinculada ao PPGHC, a Profa. Norma dedicava-se ao estudo do fenômeno imperial romano a partir de múltiplas perspectivas, sendo a que mais me interessava àquela que se dedicava à análise das interações culturais contextualizadas no Império Romano. Assim, no tratamento do fenômeno imperial romano, por exemplo, considerávamos que, por sua duração e tamanho, este oferecia uma das melhores oportunidades para se estudar o desenvolvimento econômico num contexto dos chamados “impérios agrários”. Na iniciativa de traçar um conjunto de características comuns aos impérios enquadrados nessa tipologia, viamos que o caso Romano apresenta muitas similaridades, tais como: a produção agrícola como principal fonte de renda; a base de sustentação do Estado sendo o sistema tributário; existência de rígido sistema de taxação ou extração de excedente; enfoque central do sistema econômico em examinar a natureza do relacionamento entre sistema tributário e a produção econômica; a formação de um estado poderoso e de redes informais de poder, dominado pela corte e aristocracia imperiais, burocracia e o exército; existência de crescente estratificação social.

MAAT: Vimos, também no seu C.V. Lattes, que parte de sua pesquisa foi feita em Portugal. Qual a situação/o panorama atual dos estudos em História no país lusitano e o grau de cooperação com estudiosos brasileiros?

 Dra. Airan dos Santos Borges: Eu pesquiso a província da Lusitânia desde o mestrado, então o caminho natural era estreitar os laços de investigação com os arqueólogos e historiadores portugueses. Nesse sentido, a instituição escolhida para o estágio de doutoramento foi a Universidade de Lisboa, sob a orientação do Professor Dr. Carlos Jorge Gonçalves Soares Fabião e com o fundamental apoio do Professor Dr. José d’Encarnação (Universidade de Coimbra, já licenciado), da Professora Dra. Helena de Paula Carvalho, da Universidade do Minho e do Professor Dr. Francisco Mendes, também da Universidade do Minho.

No tocante à cooperação entre os investigadores portugueses e brasileiros, torna-se importante destacar que meus primeiros contatos com o Professor José d’Encarnação foram viabilizados pela minha (querida) orientadora, Professora Dra. Norma Musco Mendes. Ela já havia ‘preparado o caminho’, digamos assim, ao firmar uma parceria (enquanto colaboradora) desde 2008 com os professores das Universidades do Algarve, Lisboa, Minho, e aqueles que integram o Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e do Porto (CEAUCP). Nesse contexto, o professor Encarnação ministrou minicursos na Universidade Federal do Rio de Janeiro (em 2006), onde pude não apenas assistir como também participar da comissão executiva como monitora. Desde então, meu interesse e proximidade com a epigrafia provincial da Lusitânia já começava a ganhar corpo (o que se fortaleceu com as fundamentais e inesquecíveis aulas de Epigrafia Latina e Grega dadas pela Professora Doutora Maricí Magalhães, enquanto professora substituta na UFRJ, mais ou menos no mesmo período). O aprofundamento desse contato se deu ao longo do mestrado, quando realizei um período de pesquisa no Museu do Teatro Romano de Lisboa e no Museu Nacional de Arte Romano em 2008. Vale destacar que nesta última experiência, meu contato com as referidas instituições só foi possível com a mediação do professor Encarnação.

Já os contatos pessoais com os Professores Carlos Fabião e Helena Carvalho aconteceram no Brasil, na ocasião do I Simpósio do Laboratório de Arqueologia Provincial Romana, no MAE – USP em novembro de 2013, poucos meses antes da aprovação da minha bolsa no Programa PDSE (Doutorado Sanduíche, da CAPES). Quando do início da vigência da bolsa vinculada ao PDSE, em 2014, fui muitíssimo bem recebida e integrada pelos professores em seus respectivos espaços de investigação (em Lisboa, na Biblioteca Central e na equipe da campanha de escavação de 2014 desenvolvida no sítio de Ammaia – sob a orientação do Prof. Fabião; e, em Braga, na Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho – sob a supervisão da Profa. Helena Paula).

De fato, todas essas experiências foram fundamentais para a reformulação da minha pesquisa e, principalmente, para a minha formação enquanto investigadora. Contudo, é preciso ressaltar que todas essas experiências só foram possíveis por ter recebido fomento público, através de bolsas de pesquisa tanto da FAPERJ quanto da CAPES, para a compra de livros e a realização das viagens de pesquisa. Sem o investimento público essa trajetória não seria possível.

Apesar de, principalmente nos últimos anos, haver muito material disponível na internet sobre Antiguidade Clássica e sobre o Império Romano em particular (me refiro aos catálogos epigráficos, numismáticos, atas das escavações, plantas, artigos e livros inteiros em pdf, dentre outros), particulamente, considero fundamental para um estudante que investiga qualquer temática da Antiguidade conhecer pessoalmente, em algum momento, seu ‘espaço’ de pesquisa. Assim, conhecer os sítios arqueológicos, observar de perto os monumentos epigráficos, caminhar pelas vias romanas mudou minha forma de estudar e de interpretar os vestígios arqueológicos. Dito de outro modo, foi importante para minha reflexão ter uma noção material dos objetos e contextos que antes conhecia apenas de modo teórico, abstrato.

Paralelamente a isso, estar nas instituições europeias me permitiu conhecer outras metodologias de pesquisa, ampliar meu olhar investigativo e aprender outras formas de questionar os vestígios arqueológicos. Indubitavelmente, participar dos grupos de pesquisa, da escavação no sítio da cidade romana de Ammaia, conhecer a fantástica estrutura de pesquisa dos Museus que frequentei mudou minha forma de observar e investigar a Antiguidade.

MAAT: Quando falamos de História Antiga, geralmente não é a Península Ibérica a primeira imagem que nos vem à mente. Geralmente nos vem a imagem do Egito, da Grécia e de Roma. Qual a importância da Penísula Ibérica dentro desse contexto de História Antiga?

Dra. Airan dos Santos Borges: A Península Ibérica tem um povoamento histórico bem interessante, e não me refiro apenas ao período romano. Minhas pesquisas sobre a ocupação romana da Península Ibérica acabaram por revelar que o contexto provincial é altamente fértil para o estudo fenômeno da integração política no contexto imperial. Principalmente por viabilizar uma compreensão mais dinâmica das interações culturais, políticas, econômicas, enfim, plurais que fazem da cultura política desenvolvida no mundo provincial criado na Lusitânia, uma esperiência particular, única.  Penso que o maior ganho que essa mudança de perspectiva me trouxe foi problematizar uma série de generalizações a respeito do Império Romano e não mais tomá-lo como uma unidade, mas como uma construção artificial, uma entre várias fases históricas do que podemos chamar de Mediterrâneo Antigo. Estudar o contexto penínsular é ir além da ‘camada romana’, mas pensar as presenças cartaginesa, grega, fenícia, ibérica, celtíbera, que contribuíram de modo decisivo na construção de inúmeras ‘identidades’ regionais – digamos.

MAAT: E no Brasil atual, como a senhora vê, hoje, as pesquisas em História Antiga e a qualidade dessas?

Dra. Airan dos Santos Borges: Eu entendo que, nos últimos anos, a pesquisa em Antiguidade acompanhou o crescimento da Universidade Pública no Brasil. A democratização do Ensino Superior é a grande herança dos últimos governos legítimos, o que contribuiu para a divulgação da História Antiga entre pessoas que não talvez não tivesse acesso a esse campo de estudos fora do ambiente universitário. Olhando a partir desta perspectiva, percebo um crescimento muito positivo nos estudos. Novos temas de pesquisa, novas problemáticas, novas teias teóricas foram formuladas e tecidas a partir de visões de mundo muito distintas e, talvez, um pouco menos elitista. É claro que essa reflexão exige argumentos mais densos do que exponho aqui e precisa considerar, também, a reformulação teórico-metodológica da própria investigação histórica. Mesmo assim, acho válido deixar esse registro (que, a meu ver, merece uma investigação particular): como o ensino e a pesquisa em História Antiga acompanharam as novas demandas trazidas pelas políticas de democratização do Ensino Superior? Ou ainda, as novas tecnologias? As incômodas mudanças provocadas pelas redes sociais nos hábitos de leitura?

De todo modo, vejo que as pesquisas em Antiguidade tiveram, sim, um salto qualitativo. A minha geração, por exemplo, ainda frequentou muita biblioteca, arquivo, e não tinha tanto acesso às publicações internacionais, principalmente porque a internet estava engatinhando no Brasil (salvo se sua instituição de pesquisa ou orientador (a) tivesse um bom acervo). Hoje esse panorama é radicalmente diferente! Minhas turmas riem quando menciono a saga que era vencer os fungos e ler o CIL no setor de obras raras da biblioteca do IFCS, e tem dificuldades de pensar um mundo sem a ditadura (ou a libertação?) dos PDF’s.

Enfim, vejo com bons olhos a ampliação dos estudos sobre Antiguidade, mas ainda acho que as pesquisas precisam sair (mais) dos ‘castelos de cristais’ e dialogar de modo efetivo com o cotidiano da sociedade, das comunidades urbanas e rurais. Não há mais espaço para uma História Antiga que massageie o ego dos colecionadores ou amantes das belas artes.

MAAT: A senhora é, atualmente, professora de História Antiga na UFRN. De onde veio, onde surgiu esse interesse pela História Antiga?

Dra. Airan dos Santos Borges: Se me permite, antes de falar sobre minha trajetória em Antiga, preciso mencionar a escolha pelo curso de História, propriamente dito. Meu pai, hoje aposentado, era metalúrgico na indústria naval, e queria que eu estudasse Direito, “para trabalhar com Direito do Trabalho, principalmente associado à Indústria naval”, nas palavras dele. Já minha mãe, professora do Ensino Fundamental, não tinha pretensões tão específicas, ela queria que escolhêssemos (eu e meu irmão), uma formação que nos desse uma boa condição financeira. Gosto de pensar que fiz uma escolha baseada em minhas crenças e, no fundo, foi muito massa ver a alegria e o choro dos meus pais em minha formatura. É emocionante lembrar até hoje da alegria deles ao ver a ‘primeira graduada da família em uma universidade pública’.

Emoções a parte, meu interesse em estudar História Antiga veio do ambiente de ensino e pesquisa da UFRJ mesmo. Em 2003 iniciei a graduação em História, já no terceiro período comecei a me interessar por História Antiga. Eu me apaixonei pelos festivais romanos, pela Arqueologia Clássica, eu achava tudo muito fascinante e ‘avançado pra época’ (eu realmente achava isso).

O passo decisivo, de iniciar efetivamente nas atividades de pesquisa, foi dado após a conclusão das disciplinas: “Estrutura Econômica e Social do Baixo Império” e “História Antiga II”, ministradas pela Profª Dra. Norma Musco Mendes; e “História Antiga I” e “Espaço Social na Grécia Antiga”, ministradas pelo Prof. Dr. Fábio de Souza Lessa, todas no primeiro semestre de 2004. Após essa imersão nos universos ateniense e romano, em um só fôlego, a paixão pelo mundo antigo já parecia irreversível. Por sua vez, a escolha pelo mundo romano foi natural, tendo em vista a identificação deste com as inúmeras históricas bíblicas lidas desde a infância.

Do interesse em conhecer mais veio o e estímulo pela especialização e, diante das exigências financeiras caras à estadia na Universidade, adquirir uma bolsa de pesquisa não consistia em uma possibilidade, mas uma necessidade. Assim comecei as atividades pesquisa participando de seleções para bolsa de monitoria e, ao final desta, de iniciação científica, desenvolvidas ao longo daqueles idos de 2004 a 2007. Foi assim que ingressei no Laboratório de História Antiga, o LHIA.

Foi na monitoria que a escolha por me dedicar aos estudos sobre Roma e a formação de seu Império aconteceu. Sob as orientações da Professora Norma, segui como monitora por dois anos (2005 e 2006), exercendo atividades de pesquisa junto ao LHIA, produzindo materiais didáticos de apoio para os estudantes inscritos e ministrando de uma a duas aulas por semestre sob a supervisão da Professora Regente. Estes foram, sem dúvidas, anos essenciais para minha formação como professora e pesquisadora.

Diante da fertilidade das experiências de pesquisas desenvolvidas durante a graduação, fui convidada pela Professora Norma M. Mendes a avançar em direção ao mestrado. Assim, após uma fase de intensas leituras e reflexões, reconfigurei meu objeto de pesquisa e participei da seleção do Programa de Pós-Graduação em História Comparada (PPGHC- UFRJ). Se na graduação meu interesse era compreender as práticas sociais a partir do calendário cívico, no mestrado eu ajustei meu olhar ao enfocar o espaço urbano das cidades (ou, melhor dizendo, das civitates romanas). Nesse aspecto, eu compreendi o espaço em uma dupla perspectiva: como um produto das relações sociais e como produtor das dinâmicas sociais.

Munida com estes pressupostos, iniciei o curso de mestrado em 2008 no PPGHC¹, defendendo a hipótese de que, após a projeção de força representada pelo exército romano, a organização espacial das áreas recém-conquistadas constituiu-se em uma estratégia de consolidação e manutenção do território dominado. A divisão das áreas em províncias, e a subdivisão destas em civitates com estatutos politico-jurídicos diferenciados se fez presente em boa parte da face ocidental do Império Romano, formando experiências distintas.

Nessa reflexão, compreendi que tanto os textos escritos sobre história romana como os elementos materiais provenientes das províncias oferecem subsídios para a construção histórica a respeito do Império Romano². Nesse sentido, relativizei as fronteiras entre a produção histórica e os estudos arqueológicos e epigráficos³. Com efeito, foi na confrontação entre os documentos escritos e de cultura material que consegui identificar e analisar os diálogos e as intercessões entre as especificidades locais e a estrutura de domínio desenvolvida.

A pesquisa desenvolvida durante o mestrado enfrentou inúmeros desafios, contudo, o principal consistiu no acesso à documentação arqueológica e epigráfica em análise. De certo, muitos catálogos importantes, como o Corpus Inscriptionum Latinarum (CIL) e o Hispania Epigráfica estão disponível na internet. Todavia, frente às especificidades do objeto em estudos, e o acesso às plantas arqueológicas da cidade investigada, quando disponibilizadas pelo Museu Nacional de Arte Romana de Mérida (mais importante centro de estudos a respeito da antiga coloniae romana, localizado em Mérida-Espanha), não apresentavam todas as informações que carecíamos. Assim, o exame dos sítios, a vivência dos caminhos romanos estudados, o acesso aos bancos de dados da Instituição e as rápidas, porém fundamentais, reuniões de pesquisa com a coordenadora do Museu à época, Profª Drª Trinidad Nogales Basarrate, faziam da viagem à Mérida imprescindível.

Em 2011, quando da elaboração das diretrizes iniciais da pesquisa de doutorado, escolhi dar continuidade aos estudos dos processos de interação cultural no Império Romano enfocando, então, na vivência do espaço das cidades e na produção material decorrente dessa vivência. Para tanto, aduzi minhas atenções para a documentação epigráfica concentrando-me, especialmente, na análise dos grupos sociais que se ‘auto-referenciam’ nos suportes.

Por motivos pessoais, a escolha pelo desenvolvimento do curso no Estado do Rio de Janeiro era a mais viável. Nesse sentido, em 2012, diante da problemática e do objeto de estudos, optei por continuar sob a orientação da Professora Norma Musco Mendes no PPGHC dedicando-me, também, ao aprofundamento dos intercâmbios acadêmicos com as Instituições de Pesquisa Europeia, a saber: a Universidade de Coimbra (através do Prof. Dr. José d’Encarnação), a Universidade do Minho (através da Profª Drª Helena Paula Carvalho na Unidade de Arqueologia da referida instituição), o Museo Romano de Mérida – Espanha (com a Profª Drª Trinidad Bogales Basarrate) e, por fim, com a Universidade de Lisboa – Instituição escolhida para realizar o estágio de doutoramento sanduíche com o Prof. Dr. Carlos Jorge Fabião.

A defesa da tese aconteceu em 14 de janeiro de 2016 e contou como banca de avaliação os Professores Dr. Pedro Paulo Funari (UNICAMP), Drª Claudia Beltrão da Rosa (UNIRIO), Dr. José d’Assunção Barros (PPGHC-UFRJ) e Dr. Paulo Duarte (PPGHC-UFRJ), sendo aprovada e com indicação para publicação. Para minha imensa felicidade, em agosto do mesmo ano (2016) passei em meu primeiro concurso para o Magistério Superior em uma Universidade Federal. Lembro com muita alegria da semana do concurso, na adrenalina que senti ao passar por cada etapa, foi realmente especial, um presente dos Céus.

Hoje sigo muito animada aqui na UFRN, em Caicó, e já começo a desenvolver os primeiros projetos de pesquisa. O alvo agora é fortalecer o ensino e pesquisa em Antiguidade no Rio Grande do Norte, em parceria com Natal e as demais Universidades Federais do Nordeste.

MAAT: Atualmente a senhora coordena um grupo de estudos em História Clássica e Ensino de História. Fale-nos um pouco sobre esse projeto.

Dra. Airan dos Santos Borges: Na verdade esse grupo de estudos foi desenvolvido na Licenciatura em História oferecida pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, a UNIRIO, na modalidade semipresencial junto ao Consórcio CEDERJ (um consórcio das Universidades Federais do estado do Rio de Janeiro que tem como objetivo contribuir para a interiorização do Ensino Superior na modalidade semipresencial). Integrei a equipe de História da Unirio por oito anos, de 2009 (quando entrei por um convite da Profa. Dra. Claudia Beltrão Rosa, que coordenava não apenas a área de História Antiga, mas também era coordenadora do curso) até julho de 2017, quando solicitei o desligamento para me dedicar integralmente à UFRN.

Ao longo dessa jornada, desempenhei muitas funções. Fui professora-tutora presencial, professora-tutora a distância, Tutora-coordenadora no Polo de Cantagalo (na região Serrana do Rio) e, por fim, coordenadora da disciplina Seminário de Ensino de História 2. Indubitavelmente, o ingresso no Consórcio Cederj foi uma interessante oportunidade de inserção num mercado de trabalho voltado para o Ensino Superior. De fato, no início, as especificidades do estudo na modalidade “à distância” converteram-se em um segundo campo de estudos e debates, agora desenvolvido sob a chancela do Consórcio Cederj, seja no contexto das capacitações oferecidas na UNIRIO (2009), na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2010, 2011), ou nos Colegiados realizados no Polo de Cantagalo entre os demais colegas que integravam a equipe de história ao longo de 2012 e 2013.

Paralelamente ao trabalho no Ensino Superior, comecei a lecionar na Educação Básica, logo após a conclusão do curso de mestrado, em fins de 2009. Foi na condução dessas duas experiências de ensino que compreendi que o exercício da docência entre os alunos mais jovens requer, além do conhecimento científico e pedagógico, a preocupação precípua com o aprendizado dos alunos com os quais passei a me relacionar diariamente. De fato, a experiência na Educação Básica revelou-se como uma excelente oportunidade de repensar meus conhecimentos pedagógicos, assim como também minha atuação na formação de novos professores de História – mais do que em novos pesquisadores stricto sensu.

Dito de outro modo, trabalhar na Educação Básica tornou-me mais sensível às especificidades que constituem a prática docente que seria vivenciada pela grande maioria de estudantes que integram a graduação após a formatura. Assim, minha prática junto à rede de Ensino Estadual serviu como um laboratório para pensar e problematizar novos aportes teóricos caros à formação de novos professores.  Desta forma, passei a compreender de forma prática que também o exercício do magistério na Educação Básica deve ser desempenhado com um olhar investigativo, e que deve ter como objetivo a geração de profissionais reflexivos e/ou que pudessem ter a pesquisa como prática recorrente em seu trabalho docente.

Foi esse caminho que me levou a formar, no contexto do trabalho no curso de Licenciatura da Unirio (no polo presencial de Cantagalo), um grupo de estudos sobre Ensino de História Antiga. Foi uma experiência muito intensa e fértil, dela saíram duas monografias na área de Ensino de História: a da Renata Bastos da Silva, intitulada: História Comparada em Sala de Aula, defendida em 2013 e a de Clenilda Gonçalves da Rocha, intitulada O tempo no Ensino Fundamental I: o desenvolvimento da noção de tempo nas crianças e o ensino de História, defendida neste ano (2017).

MAAT: Vimos que a senhora já trabalhou no campo da Teoria da História durante o seu percurso acadêmico. Como as inovações teóricas se alinham com os estudos de História Antiga nos dias de hoje?

Dra. Airan dos Santos Borges: O trabalho com teoria foi fundamental para meu crescimento acadêmico. Na verdade eu flerto com esse campo de pesquisa até hoje. Como boa dependente das lentes de correção visual, costumo dizer para minhas alunas e alunos que os arcabouços teóricos são as lentes através das quais a análise documental ganha cor e vida. Acho que é uma forma poética de me referir à importância da teoria em nossa relação com os vestígios documentais. De certa maneira, as ‘inovações teóricas’, como vocês se referiram, nos ajudam não apenas a compor uma proposta de investigação, mas de observar, sob prismas distintos, os vários caminhos da experiência humana (nos distintos tempos e espaços).  Conduzida a partir da subjetividade do pesquisador, é essa ‘dança a dois’ que faz com que novos temas, novas problemáticas, novos caminhos de pesquisa sejam desenvolvidos a partir de vestígios documentais tão antigos…

MAAT: Estudar, pesquisar a História Antiga traz consigo dificuldades reais com relação às fontes. Estamos falando não só dificuldades de acesso a documentos (muitas vezes arqueológicos) da época como também dificuldades de tradução e de interpretação desses documentos (originais ou traduzidos). No caso brasileiro, além da distância dos locais das antigas civilizações, temos a dificuldade de acesso aos itens encontrados pelos arqueologos que estudam os sítios. Como lidar com isso?

Dra. Airan dos Santos Borges: Essa pergunta me fez voltar no tempo, quando os dicionários de latim, grego, francês, inglês, alemão me acompanhava dia e noite. Comecemos pelo óbvio. Não há outra forma de lidar com essa dificuldade senão a enfrentando: há de se estudar latim, grego e outros idiomas modernos. No tocante aos documentos escritos, há inúmeras traduções excelentes no Brasil, sobretudo nos últimos anos foram lançadas ótimas publicações – que devemos prestigiar e adquirir os originais. Em se tratando da cultura material, nada substitui a importância de se conhecer os sítios, os acervos pessoalmente.  Todavia, uma ressalta se faz necessária: não podemos ser levianos e achar que essa ‘ida aos vestígios materiais’ consiste em uma tarefa fácil, principalmente em meio a tantos cortes de bolsas de pesquisa por este governo golpista e ilegítimo.

Acho que já mencionei em outros momentos da entrevista, a importância das bolsas de fomento que recebi ao longo dos últimos 13 ou 14 anos. Elas não foram importantes apenas para comprar livros, e viabilizar a minha vida na Universidade, mas, durante o mestrado, também tornou possível a realização de viagens de pesquisa às instituições de pesquisa nacionais e europeias – antes mesmo do doutoramento sanduíche (realizado em 2014). Foram viagens curtas, absolutamente econômicas, mas que me ajudaram a conhecer os sítios que eu investigava.  Porém, como sabemos, os tempos que vivemos são menos férteis.

Penso que o desafio é buscar alternativas inteligentes para driblar a crise econômica e combater essa aridez, seja no acesso às documentações, ou no tratamento das mesmas. No que tange ao acesso à cultura material, uma boa alternativa consiste em vasculhar os catálogos online e, para citar dois exemplos atrelados ao ‘mundo epigráfico’, recordo do Epigraphic Database Heidelberg  (http://edh-www.adw.uni-heidelberg.de/home) e o Hispania Epigrafica (http://eda-bea.es/pub/search_select.php) além do próprio CIL que já se encontra digitalizado e disponível em uma base online.

Outra possibilidade que não deve ser obliterada consiste no diálogo com os Professores e com outras instituições de pesquisa nacionais e internacionais. Não é incomum encontrar cursos abertos oferecidos pela plataforma virtual de universidades como Yale ou Cambridge, por exemplo. Porém, considero que os estudantes brasileiros precisam vencer a timidez (caso seja esse o problema) e buscar por um contato direto com com os professores estrangeiros via e-mail ou afins e, assim,  construir uma via de diálogo mais direta.

MAAT: Para finalizar, o projeto MAAT pede que a senhora deixe uma mensagem aos interessados no tema, estudantes e professores de história.

Dra. Airan dos Santos Borges: Quero agradecer mais uma vez o convite – que respondi de modo lento, confesso, mas que se revelou uma ótima oportunidade para recuperar reflexões que estão bem distantes. Minha mensagem para as interessadas e os interessados não poderia ser outra senão: sejam valentes e curiosos. A realidade atual é obscura, quase tenebrosa, é verdade. Contudo, este incômodo que nos deixa ‘a flor da pele’ (como diria Lenine), também nos provoca a refletir sobre a importância, a necessidade (mais do que a utilidade) do estudo da Antiguidade no Brasil.

Não se trata de uma ‘volta às origens’, mas da urgente problematização do mundo que temos diante de nossos olhos, da construção de pontes reflexivas com outras experiências humanas, em tempo e espaços distintos dos nossos, cujas produções contribuíram de modo significativo para a construção do que chamamos de nós (não apenas o nós, Ocidente, mas todos os eles que foram tão levianamente rechaçados da tal história oficial, branca, elitista e colonizadora). É nossa responsabilidade romper os paradigmas que funcionam como ‘carvão’ para as desigualdades sociais cotidianas. E, nessa luta diária, a História Antiga proporciona aprendizados belíssimos! Um grande abraço!

O MAAT agradece em nome de todos os leitores a sua disponibilidade em responder nossas perguntas.

¹ Dissertação defendida em junho de 2010, com o título: A organização do espaço social no Principado: um estudo de caso sobre a colônia Augusta Emérita entre os séculos I a. C. – II d. C.

² MATTINGLY, D. J. ‘Dialogues of power and experience in the Roman Empire’. IN: MATTINGLY, D. J.  (Org.) Dialogues in Roman Imperialism. Journal of Roman Archaeology Supplemetary Series, n.23, Oxford: Oxbow Books, 1997, p. 7-27.

³ DYSON, S. L. ‘Is there a text in this site?’. In.: SMALL, D. B. (Edit.) Methods in the Mediterranean: historical and archaeological views on the texts and archaeology. Leiden/New York/Köln: E. J. Brill, 1995, pp. 25-44.

Entrevista realizada em 2017.

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Agradecimento – I Ciclo de Debates Sobre Oriente Antigo

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O MAAT agradece aos participantes do I Ciclo de Debates sobre o Oriente Antigo, aos da UFRN e do RN e também àqueles que vieram de longe prestigiar o nosso evento. E nosso especial agradecimento às professoras convidadas, Maria Violeta Pereyra e Liliana Manzi, pelos agradáveis dias que estiveram conosco prestigiando nossa universidade e nosso grupo.

Marcia Severina Vasques (coordenadora do MAAT/UFRN).