Defesa de monografia de Ruan Silva

O IMPACTO DA EXPANSÃO DO IMPÉRIO NEOASSÍRIO NA REGIÃO PALESTINA DURANTE O SÉCULO VIII A.C.

Autor: Ruan Silva.
Orientadora: Dra. Marcia Severina Vasques.
Banca: Dra. Lyvia Vasconcelos e Dr. Francisco Santiago.

Data: 30/06;
Horário: 14h;
Local: Auditório B, CCHLA, UFRN.

Resumo:
Este trabalho tem por finalidade analisar o impacto da expansão do Império Neoassirio na região da Palestina Antiga durante o século VIII a.C., sobretudo no governo do rei assírio Tiglath-pileser III (745-727 a.C.). Analisaremos o contexto de definição e delineamento das identidades étnicas orientais, tal como os discursos de alteridade que são produzidos em Israel e na Assíria. Pretendemos, com isso, definir que ambos os povos possuíam ideologias político-militares e religiosas com traços semelhantes, sobretudo no que se refere à prática de guerras ordálicas.

Palavras-chave: Identidade étnica. Discursos de Alteridade. Guerra ordálica.

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Defesa de monografia de Keidy Matias

A PRESENÇA DA AUSÊNCIA: CARTAS EGÍPCIAS AOS MORTOS E O ENSAIO SOBRE A DÁDIVA

Autora: Keidy Matias.
Orientadora: Dra. Marcia Severina Vasques.
Banca: Dra. Lyvia Vasconcelos e Dr. Francisco Santiago.

Data: dia 29/06;
Horário: 14h;
Local: Auditório de Geografia.

Resumo:
Neste trabalho realizamos uma análise das cartas egípcias dedicadas aos mortos, escritas em cumbucas de cerâmica contendo comidas e bebidas que, na medida em que atraíam os mortos aos alimentos, também os faziam ler cartas contendo petições e reclamações de suas supostas negligências, haja vista ser o ancestral morto um dos responsáveis pela proteção dos seus descendentes no mundo dos vivos. As cartas escritas em pequenas cumbucas testemunhavam às preocupações dos vivos na continuação da vida dos seus ancestrais, mas em troca exigiam que os mortos lhes protegessem e os ajudassem a resolver problemas cotidianos (disputas por heranças, por propriedades, questões de doença etc.) causados por mortos maléficos. Assim, apropriamo-nos da conceituação de Marcel Mauss, no livro Ensaio sobre a Dádiva, para refletirmos sobre os papeis sociais dos vivos e dos mortos, pois os vivos deveriam manter a vida dos mortos e estes, por sua vez, deveriam manter a ordem no cotidiano dos viventes.

Palavras-chave: Cartas aos Mortos. Primeiro Período Intermediário. Marcel Mauss. História Social.

uc16163Uma das fontes estudadas:

A Cumbuca de Ḳâw

Datação: Provavelmente, VI ou VII Dinastia (I Período Intermediário);

Localização atual: Edwards Library (University College) — Petrie Museum of Egyptian Archaeology. Londres, Inglaterra.

IV Evento de História Antiga e Medieval (Petrolina)

O IV Evento de História Antiga e Medieval possui uma trajetória importante no incentivo à pesquisa e à divulgação de trabalhos acadêmicos em História Antiga e Medieval no estado de Pernambuco e na região nordeste de nosso país. Os eventos têm sido realizados pela Universidade de Pernambuco (UPE). Em suas três primeiras edições (2012, 2014, 2016), a sede das atividades esteve em Nazaré da Mata, tendo à frente de sua organização o Prof. Dr. José Maria Gomes de Souza Neto, junto do grupo de pesquisa que coordena, Leitorado Antiguo. Em sua quarta edição, o evento dessa vez será realizado na unidade de Petrolina, organizado pelos professores Fernando Mattiolli Vieira (Antiguidade Oriental), Luciano José Vianna (Medievo) e Thiago Eustáquio Araújo Motta (Antiguidade Clássica). A curta e expressiva trajetória dos Eventos tem mostrado sua importância: eles têm reunido os mais importantes pesquisadores do nordeste e de outras regiões e fortalecido os estudos em Antiguidade e Medievo, colocando nossa região entre os principais polos produtores de conhecimento nessas áreas no país. Desde sua primeira edição, pesquisadores, iniciantes e interessados, têm se aproximado e feito dos Eventos de História Antiga e Medieval uma oportunidade para aprimorarem seus conhecimentos. Será um prazer ter você fazendo parte dessa história!

Sítio do evento: https://ivencontro.vpeventos.com

Dr. Alex Martire

Nosso entrevistado é o historiador e arqueólogo Dr. Alex Martire, pesquisador do Laboratório de Arqueologia Romana Provincial (LARP, MAE-USP).

Alex

MAAT – Núcleo de Estudo de História Antiga: Inicialmente, o Maat pede que o senhor fale um pouco sobre o seu percurso acadêmico, especialmente sobre o seu interesse pela realidade virtual e arqueologia.

Dr. Alex Martire: Acredito que cheguei até aqui graças a dois gostos distintos, um de infância e um de adolescência. Na infância eu fui “apresentado” aos desenhos animados do Asterix que passavam à tarde na televisão, mas eu preferia os romanos aos gauleses (não sei se sou o único a ter esse “gosto”, mas acredito que não seja muito comum). Então a infância foi marcada por uma curiosidade muito grande pela História romana, e na escola esse período foi um dos que mais gostei. Já na adolescência, enveredei pelo caminho da eletrônica e informática quando cursei colégio técnico nessa área. Trabalhei um período com assistência técnica e, ao sair da empresa, resolvi resgatar o sonho da infância em estudar os romanos. Mais: iria aliar os desenhos do Asterix com os filmes do Indiana Jones e seria um arqueólogo!

Prestei, então, vestibular para ingressar em História na USP e iniciei os estudos em 2003. Já em 2004, após cursar uma disciplina optativa da Profa. Dra. Maria Isabel D’Agostino Fleming no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE-USP), acabei criando coragem (pois todo graduando é tímido no começo de carreira…) e pedi orientação à Profa. Maria Isabel (mais carinhosamente conhecida por Mabel). Gentilmente, ela orientou minha Iniciação Científica, e de lá para cá sempre trabalhamos juntos. Realizei a pesquisa de Mestrado entre 2009 e 2012, estudando mineração romana no atual território de Portugal: na época, entreguei junto com a dissertação uma modelagem 3D interativa sobre uma paisagem mineradora hipotética. Percebendo que realmente essa era uma área que eu gostava de atuar, pesquisei mais sobre o tema e encontrei os trabalhos do Prof. Dr. Maurizio Forte (Duke University), o pioneiro do diálogo entre Realidade Virtual e Arqueologia, a chamada Ciberarqueologia. Entrei em contato com o arqueólogo e diretor do Museu Municipal de Aljustrel (Portugal), o Artur Martins (que eu havia conhecido em 2010), e tive “carta branca” para atuar na construção digital interativa de Vipasca como objeto central de meu doutorado. De 2012 à 2017 realizei minha pesquisa, obtendo meu título de Doutor em fevereiro de 2017.

Toda modelagem 3D e interatividade que apliquei em meus trabalhos comecei por estudar com o auxílio da internet, principalmente o YouTube. Fiz depois alguns cursos de aperfeiçoamento, mas posso garantir que, sem prática cotidiana, dificilmente ficamos bons em modelagens tridimensionais. No caso da Realidade Virtual em si, além dos estudos pessoais, sempre tive o apoio do Laboratório de Arqueologia Romana Provincial (LARP; fundado em 2011 e coordenado pela Profa. Mabel), que possui os equipamentos necessários para o desenvolvimento dos aplicativos ciberarqueológicos. Atualmente sou Supervisor de Produção Tecnológica do LARP e dirijo os projetos interativos do laboratório.

MAAT: Até que ponto o senhor acha que o trabalho com a realidade virtual contribui para o surgimento de novos interessados em arqueologia, sobretudo nesta sociedade cada vez mais usuária de mídias digitais?

Dr. Alex Martire: A Realidade Virtual está presente desde os anos 1940, quando os EUA desenvolveram simuladores de voos para treinar combatentes para a Segunda Guerra Mundial. No âmbito mais acadêmico, os primeiros trabalhos de RV imersiva são da década de 1960. Mas o que realmente fixou a RV em nossa sociedade foram os videogames na década de 1970. Atualmente, a indústria de jogos eletrônicos já supera os ganhos de Hollywood, e a cada ano a E3 (principal feira de videogames do mundo que acontece nos EUA) deixa o público em polvorosa com os lançamentos de jogos e novos consoles.

Sei que pode parecer um pouco estranho eu mencionar videogames aqui, mas a verdade é que os jogos eletrônicos são a principal fonte de Realidade Virtual que temos hoje em dia. Os jogos eletrônicos são RV porque trabalham com dois conceitos centrais da literatura da engenharia sobre essa temática: a imersão e a interatividade em tempo real. Sem ambas, não existe RV. A imersão é um conceito um pouco mais delicado, pois é bastante subjetivo (você pode, muito bem, ficar “imerso” em um jogo por horas sem utilizar óculos de realidade virtual), mas a interatividade em tempo real pode ser definida como o ato de fornecermos um sinal de entrada a um computador (por exemplo, quando apertamos os botões do controle de videogame), e recebermos, a seguir, uma resposta computacional (a ação advinda do ato de pressionar o botão do controle).

Há alguns anos os videogames (ou seja, RV) têm sido usados também no contexto arqueológico. Para citar três famosos, temos Assassin’s Creed, Tomb Raider e Uncharted. Embora esses jogos não prezem pela ambientação histórica e arqueológica mais fidedigna possível, ainda assim são grandes vitrines para a Arqueologia. Se na minha infância os filmes de aventura como os do Indiana Jones despertavam nosso interesse para a história dos povos passados, hoje os videogames têm esse papel. Obviamente, muitos podem afirmar que as crianças, adolescentes e adultos hoje em dia são influenciados por jogos que contêm erros históricos e/ou arqueológicos –  quem disser isso não estará totalmente errado. Mas eu pergunto: isso não é uma falha nossa enquanto pesquisadores e educadores? É muito fácil culpar empresas por não oferecerem produtos “historicamente corretos”: elas não têm obrigação alguma em educar – elas estão ali para lucrarem de algum modo. A obrigação é nossa, dos educadores. E se os jogos têm falhas, devemos aproveitar a oportunidade para trabalhar junto aos alunos e mostrar a eles que videogames também possuem discursos e refletem interesses, e que aquilo que está na tela não é uma representação do “passado tal como foi”; é, sim, uma interpretação de um passado. Esse é, na verdade, o maior perigo da Realidade Virtual: as pessoas acreditarem que os modelos interativos tridimensionais são “cópias” de algo que existiu. Eles não são. Nunca serão. São hipóteses de trabalho de reconstituição. São construções feitas no presente. É necessário que o arqueólogo/historiador/educador sempre seja honesto e deixe claro que aquilo que está na RV é um passado em potencial, algo que foi construído a partir de pesquisas e que não representa integralmente um objeto/monumento que existiu no passado.

A RV tem um papel muito forte no despertar de interesse das pessoas porque é audiovisual. Devemos usá-la na arqueologia para divulgar nossos trabalhos e escapar dos muros das universidades. Mas devemos ser transparentes com relação aos dados utilizados na construção dos modelos que as pessoas experimentarão em RV.

MAAT: Em seu doutorado, intitulado “Ciberarqueologia em Vipasca: o uso de tecnologias para a reconstrução-simulação interativa arqueológica”, o senhor se utiliza de fontes antigas, bibliografia, cartografia e trabalho de campo para realizar uma reconstrução digital da aldeia de Vipasca (à época do Portugal Romano), situada em Aljustrel (atual região do Alentejo). Como surgiu a ideia de mesclar dois dos seus interesses — arqueologia e realidade virtual — em sua pesquisa?

Dr. Alex Martire: Áreas de mineração são bem complicadas do ponto de vista arqueológico: os vestígios são sempre escassos, pois geralmente a mineração é uma atividade ininterrupta que atravessa décadas ou séculos. Aljustrel está situada na Faixa Piritosa Ibérica, um enorme maciço de minérios que se estende por todo o sul da Península Ibérica. A mineração na região de Aljustrel acontece desde o IIº milênio a.C., tornando-se realmente industrial no período romano. Atualmente, os vestígios arqueológicos de Vipasca estão dentro de uma zona de mineração atuante: isso faz com que as escavações e os achados sejam sempre difíceis, pois até meados do século XX a arqueologia efetuada no local não estava ligada ao rigor científico que possui hoje em dia: muitos dados foram perdidos, e muitos achados foram descontextualizados.

Essa problemática da mineração foi central para a escolha de realizar um trabalho ciberarqueológico como produto de meu Doutorado. Graças à Realidade Virtual, foi possível estabelecer uma hipótese de reconstituição da região de Vipasca em período romano e, assim, também contribuir para a salvaguarda do patrimônio local usando tecnologias digitais. A população de Aljustrel é muito ligada à sua terra, e a mineração é a sua alma ainda hoje: com a RV tive a oportunidade de resgatar um pouco a história romana da região de um modo que vai além dos livros de História, utilizando a interatividade em tempo real. Pessoalmente, foi uma realização incrível, pois em Aljustrel tenho amigos muito queridos e devo muito à região por todo o carinho, respeito e colaboração para o desenvolvimento de minha tese: sem a ajuda do Museu Municipal e da Câmara de Aljustrel, dificilmente meu trabalho teria alcançado seu êxito.

MAAT: Em seu canal no YouTube (https://www.youtube.com/channel/UC44E5tMhzkiJUzs6Zn7IXuA) é possível acessar vídeos de inúmeros trabalhos de reconstrução em 3D, tais como “ArcheoBoy” (2012), “Roman Insula” (2015) e vários vídeos sobre Vipasca. Uma vez de posse do conhecimento teórico necessário para se trabalhar com cada temática elegida, qual o tempo médio que o senhor gasta para produzir cada vídeo?

Dr. Alex Martire: Fico feliz que tenha citado apenas os trabalhos acadêmicos do meu canal e não tenha mencionado os vídeos que gravo quando vou a shows de rock! (Muitas pessoas devem achar que pesquisadores são seres super sérios que apenas estudam e não se divertem; talvez seja melhor manter essa “áurea intelectual”…).

Brincadeiras à parte, o trabalho de modelagem 3D e renderização de vídeos é complexo e consome bastante tempo. No caso dos vídeos de teor arqueológico, tudo começa com a pesquisa bibliográfica e imagética do objeto em questão. Utilizo algumas imagens como base para fazer a modelagem tridimensional em programas específicos, como o Autodesk Maya ou Blender. Terminada a malha poligonal, pesquiso imagens específicas que possam servir como texturas dos objetos 3D (por exemplos, pedras, madeiras, solo etc.) e faço o mapeamento dessas texturas sobre a malha. Quando isso acaba, passo para o processo de iluminação da cena e movimentação da câmera 3D. Após tudo estar devidamente configurado, começo a renderização da cena: esse processo mescla a malha poligonal texturizada com a iluminação, criando efeitos que emulam o mundo real. Tal como nos filmes, cada segundo do vídeo leva 24 quadros, ou seja, 24 renderizações. E, dependendo da complexidade da cena e da qualidade pretendida, cada quadro pode levar alguns bons minutos para renderizar (animações da Pixar, por exemplo, levam cerca de 24 horas para cada quadro). Quando a renderização acaba, eu pego todas as imagens (lembrando que são 24 quadros multiplicados por cada segundo de filme pretendido) e as junto em um arquivo só, gerando uma animação completa.

O processo completo, da modelagem ao produto final, varia bastante de acordo com o tema. Contudo, a média de produção é de 2 ou 3 semanas.

MAAT: Por curiosidade, o que veio primeiro: o seu interesse pela Antiguidade ou pela realidade virtual?

Dr. Alex Martire: Parando para pensar, eu diria que foi a Realidade Virtual. Mas esse interesse surgiu quando eu nem sabia o que RV era! Digo isso porque eu ganhei meu primeiro videogame antes mesmo de saber ler e escrever (era um Supergame CCE, caso queira saber; ele foi uma das variantes mais baratas do Atari que o Brasil fabricou). Somente no decorrer do Doutorado eu fui estudar RV profundamente e, aí sim, entendi que videogames se enquadram nessa categoria.

Meu interesse pela Antiguidade veio um pouquinho depois, ao assistir desenhos do Asterix na TV e colecionar revistas que eram vendidas nas bancas de jornais e vinham com estatuetas egípcias. Contudo… Bom, alguns jogos do Atari possuíam esse teor “arqueológico”, não é? Pitfall! era um deles. Talvez o interesse por ambas as áreas tenha surgido ao mesmo tempo, afinal.

MAAT: Quais os seus projetos em desenvolvimento no MAE e quais os resultados esperados?

Dr. Alex Martire: O que mais gosto do Laboratório de Arqueologia Romana Provincial (no MAE) é que nunca paramos de criar! Sempre tentamos divulgar nosso trabalho de forma que atinja as pessoas fora do meio acadêmico, fora do “Vaticano Uspiano”. A internet é o maior meio de comunicação mundial, e graças à ela podemos sempre colocar nossos produtos à disposição da população. Ao mesmo tempo em que isso representa uma abertura acadêmica, é uma tentativa de sempre mostrar nossa relevância dentro de um museu universitário formado maioritariamente por pesquisadores que estudam arqueologia brasileira: a Antiguidade é uma área que nem sempre é bem-vista no âmbito universitário, pois muitos acham que é “inútil”. Os projetos do LARP, assim, são uma contribuição para que os estudos de História Antiga estejam acessíveis a todos. Nossa preocupação maior é a de promover a Antiguidade de modo que ela não fique restrita aos livros: o mundo se tornou digital, nós devemos acompanhar essa mudança e trabalhar sobre seus pontos positivos.

Atualmente temos 4 grandes projetos em desenvolvimento. O primeiro é o Mapa Interativo do Império Romano: nele, estarão plotados todos os pontos visitados pelos pesquisadores do LARP durante seus trabalhos de campo além de fotos e informações sobre cada localidade. Atuando em conjunto com o mapa, está o segundo projeto, o GLO.R.I.A. (Glossário Romano Interativo Arquitetônico): utilizando a plataforma Wiki, o glossário, que é desenvolvido pela pesquisadora Julia Faria Codas, conta com centenas de verbetes arquitetônicos baseados na dissertação de Mestrado da pesquisadora Irmina Doneux Santos; o GLO.R.I.A. estará ligado ao Mapa Interativo, assim os visitantes poderão ver as localidades e imagens no mapa e também acessar os verbetes quando desejarem. O terceiro projeto é uma atualização do nosso primeiro aplicativo ciberarqueológico (o ROMA 360): denominado ROMA TOUCH, o app será mobile, permitindo a navegação pelo mapa de Roma por meio de gestos e, também, contanto com mais de 100 textos redigidos pelos pesquisadores do LARP e ligados a cada monumento 3D que está na tela. Por fim, temos o nosso grande projeto, o mais ambicioso até agora: o jogo O Último Banquete em Herculano – ele será um jogo eletrônico no estilo adventure em que você terá de ajudar o escravo Septimius a realizar uma série de tarefas para o seu dominus pela cidade de Herculano. A previsão de entrega de todos os projetos é o primeiro semestre de 2018. Todos estarão disponíveis em nosso website (www.larp.mae.usp.br).

Outro projeto que está em desenvolvimento é o de escaneamento digital de artefatos do acervo do museu e sua impressão 3D. Após impressos, nós fazemos moldes de silicone das peças e as replicamos em resina. Esse material, além de ser facilmente reposto quando necessário, permitirá ao MAE trabalhar com os visitantes do museu e os professores que participam das formações oferecidas pelo museu.

MAAT: A escola é feita por sujeitos que não estão alheios ao crescimento do uso de novas mídias, embora este dado muitas vezes não se reflita dentro da sala de aula, quando os alunos poucas vezes têm acesso às salas de computação e ao trabalho com novas mídias. Este campo de interesse dos alunos vem sendo trabalhado pelo senhor a partir do projeto piloto do Domus, que facilita tanto aprendizado da arqueologia quanto da história de Roma e, por conseguinte, do tempo histórico. Fale-nos sobre este projeto.

Dr. Alex Martire: O projeto piloto do Domus (nosso app ciberarqueológico que permite a navegação por uma casa romana antiga) foi aplicado primeiramente em uma escola na cidade de Santo André, vizinha à São Paulo. A coordenação da aplicação foi feita pelo pesquisador do LARP e professor nessa escola, o Alessandro Gregori. O processo teve duas etapas principais: no primeiro dia levamos os alunos para o laboratório de informática da escola e discutimos com eles brevemente o que é Arqueologia e quais visões eles tinham do mundo romano – após essa introdução, pedimos que os alunos utilizassem o aplicativo Domus para navegar pela casa e anotar todos os cômodos que encontrassem; por fim, conversamos com eles sobre as semelhanças e diferenças entre suas casas e as dos romanos. A segunda etapa consistiu em trabalhar com os alunos utilizando réplicas de artefatos cotidianos romanos e itens atuais da nossa sociedade: por exemplo, pedimos que comparassem uma réplica de lamparina romana com uma lanterna à pilha. Essa etapa serviu para mostrar aos alunos um pouco sobre como os arqueólogos trabalham, fazendo analogias e buscando entender os contextos nos quais os objetos estão inseridos. A RV como o Domus, desse modo, apresenta-se não como um fim, mas, sim, como um meio de educar. Não adianta apenas pedir para os alunos acessarem um programa de computador: é necessário, sempre, haver um trabalho atento do educador antes e depois do uso da RV em sala de aula. O papel principal sempre foi e será do professor, a tecnologia jamais deve substituir a sua figura: ela existe para auxiliar o profissional na Educação e torna-lo um facilitador/tradutor de conteúdo.

Essa aplicação na escola serviu de base para o desenvolvimento do nosso curso de formação de professores que ofertamos junto ao Setor Educativo do MAE periodicamente. Nesse curso apresentamos o Domus e os demais produtos ciberarqueológico do LARP, além de discutirmos como esse material digital pode ser empregado em salas de aulas. Todas as formações de professores do MAE são gratuitas e podem ser agendadas diretamente com o setor responsável do museu. Os resultados têm sido bastante positivos.

MAAT: O senhor é pioneiro no trabalho com ciberarqueologia no Brasil. Quais as principais dificuldades encontradas na realização de suas pesquisas? Que caminhos outros interessados podem tomar?

Dr. Alex Martire: Acho que, no começo, a principal dificuldade foi o preconceito com essa área nova. Muitos podem pensar que Ciberarqueologia não é Arqueologia porque não é “tradicional”. Provavelmente alguns não acreditaram muito no potencial do meu trabalho… Bom, o simples fato de eu estar aqui hoje sendo entrevistado mostra o quão errado algumas pessoas estavam, não é mesmo?!

Felizmente a situação foi mudando bastante no decorrer do desenvolvimento de minha pesquisa e dentro do MAE fui convidado para mostrar meu trabalho aos meus colegas em algumas ocasiões: isso fortaleceu a Ciberarqueologia como área de pesquisa dentro do museu. Hoje o LARP (e o MAE) são sinônimos de ciberarqueologia no Brasil: meu trabalho trouxe ao país o aprofundamento da temática do uso da Realidade Virtual com a Arqueologia (além da tradução do termo até então apenas inglês, cyber-archaeology).

Para se estudar Ciberarqueologia é importante ter amor incondicional por computadores: a maior parte do tempo o pesquisador passará sentado modelando e programando. É importante saber como os equipamentos funcionam (tais como óculos de RV, escâneres e impressoras 3D) e estar sempre por dentro das novidades e atualizações. Paciência também é uma palavra-chave: computadores são “temperamentais” muitas vezes, e acontecerá de ter de refazer um trabalho em algumas ocasiões. Acredito que, para além da Arqueologia, é necessário centrar-se em duas áreas que requerem habilidades específicas: a modelagem 3D e a programação. Modelar tridimensionalmente é fundamental para dar vida ao que se deseja – é o modelo que expressará suas hipóteses visuais de trabalho. Programar fará com que você permita ao usuário interagir em tempo real dentro de um ambiente virtual tridimensional.

Use a internet para aprender. Use seus amigos/colegas para aprender. Não tenha medo de perguntar: não existem perguntas idiotas – idiotice é não perguntar.

MAAT: Por fim, pedimos que o senhor deixe uma mensagem aos professores e estudantes interessados em ciberarqueologia.

Dr. Alex Martire: Ciberarqueólogos do mundo, uni-vos!

Precisamos fortalecer essa área no Brasil. Se você gosta de computadores e acredita que eles possam ser usados na sua pesquisa para além de redigir textos no Word, não tenha medo de ousar. Não fique preso a rótulos acadêmicos (nem na vida como um todo). Não seja preconceituoso com outras áreas que não sejam as Humanidades: muita gente boa e interessada está em outras áreas de pesquisa, e muitos podem querer trabalhar com você. Não tenha medo de defender seu trabalho e suas ideias nos momentos difíceis. Não tenha vergonha de gostar das coisas: é o seu amor por áreas diferentes que o fará seguir adiante, seja na ciberarqueologia ou não.

Não se esqueça de ter uma vida pessoal para além dos estudos: a vida acadêmica é boa, mas não substitui o beijo da pessoa amada.

E, por favor, não deixe a universidade atrapalhar seus estudos. Ela não vale isso. Mesmo.

O MAAT agradece em nome de todos os leitores pela sua disponibilidade em responder nossas perguntas.

Dra. María Violeta Pereyra

Nossa entrevistada é a egiptóloga Dra. María Violeta Pereyra, professora da Universidad de Buenos Aires.

Tradução: Alaide Matias Ribeiro – MAAT/UFRN

MAAT – Núcleo de Estudo de História Antiga: Inicialmente, o Maat pede que a senhora fale sobre seu percurso acadêmico e o que a direcionou ao seu interesse em História Antiga, especialmente, a do Egito Antigo.

Dra. María Violeta Pereyra: Estudié historia en la década del ’70, interesada por entender el contexto social y político que estaba desarrollándose en Latinoamérica. En ese momento pensaba dedicarme a la historia argentina colonial, pero la casualidad hizo que me ofrecieran ingresar al Instituto de Historia Antigua Oriental como auxiliar de investigación. Acepté de inmediato, ya que su director era Abraham Rosenvasser y esa era mi oportunidad para trabajar con un académico extraordinario. Al inicio me incliné por el mundo bíblico, pero al avanzar en los estudios de lengua egipcia clásica, me resultó fascinante la escritura jeroglífica y desde entonces reorienté mi carrera hacia la egiptología.

Estudei História na década de 70, interessada em compreender o contexto social e político que estava se desenvolvendo na América latina. Nesse momento pensava em me dedicar à história argentina colonial, mas a casualidade fez com que me oferecessem ingressar no Instituto de História Antiga Oriental, como auxiliar de investigação. Aceitei de imediato, já que seu diretor era Abraham Rosenvasser e essa era a minha oportunidade para trabalhar com um acadêmico extraordinário. No início me inclinei para o mundo bíblico, mas ao avançar nos estudos da língua egípcia clássica, a escrita hieroglífica me pareceu fascinante e desde então reorientei minha carreira para a egiptologia.

MAAT: Como a senhora declara a atuação do egiptólogo Abraham Rosenwasser no campo de História Antiga, na Argentina? Quais as influências que Rosenwasser exerceu sob seu trajeto acadêmico?

Dra. María Violeta Pereyra: Rosenvasser perteneció a una generación de intelectuales cuya excelencia se reconoce en diferentes áreas de la ciencia y la cultura argentinas. Se había formado como jurista primero y luego como profesor de historia. Su dedicación a la enseñanza de la historia antigua se inició en el Profesorado y en la Universidad Nacional de La Plata, donde creó un Centro dedicado a la investigación en las civilizaciones antiguas, clásicas y del Oriente Próximo. Su conocimiento de mundo bíblico y su interés en las lenguas orientales lo llevaron a aprenderlas, considerándolas herramientas fundamentales para el abordaje de las fuentes. Tuvo un destacado desempeño en esa universidad, en la que fue elegido Decano, y con su patrocinio participó cono codirector de la Misión Franco-Argentina en Aksha (Nubia). Más tarde trasladó sus actividades académicas a la Universidad de Buenos Aires, encontrando en el rector Risieri Frondizi el apoyo necesario para dar mayor desarrollo a los estudios del Cercano Oriente antiguo en Buenos Aires, siguiendo los modelos de formación vigentes en las instituciones más importantes de la época, como por ejemplo el Oriental Institute de la Universidad Chicago. Producto de esa época de oro de la Universidad de Buenos Aires, Rosenvasser pudo establecer un diseño de los estudios que permitieron formar un par de generaciones de especialistas, con enfoque en los estudios bíblicos y egiptología, dado que las lenguas que allí se enseñaron fueron el hebreo bíblico, el copto y el egipcio clásico.
Tuve el honor de trabajar bajo su dirección dos años, en los que además del egipcio y la investigación a partir de fuentes, me enseñó otras cosas que me sirvieron enormemente en mi carrera y que se vinculan directamente con las actitudes hacia la profesión. Para mi generación los ejemplos eran valiosos, no para seguirlos ciegamente, sino porque instaban a búsquedas y provocaban acciones. Entre las que más me marcaron están la consistencia de sus acciones con su pensamiento, que le daba una autoridad indiscutible a su personalidad como intelectual; su apasionado entusiasmo con el saber y su visión para superar el aislamiento que significaba ser egiptólogo en Argentina. Pero sobre todo me impresionó su creencia en la excelencia y la confianza que tenía en los resultados que un trabajo sistemático podría lograr resultado, lo que lo llevaba a ser un maestro generoso a la vez que exigente.

Rosenvasser pertenceu a uma geração de intelectuais cuja excelência se reconhece em diferentes áreas da ciência e da cultura argentinas. Inicialmente, se formou como jurista e, logo depois, como professor de história. Sua dedicação ao ensino de História antiga se iniciou com a Docência na Universidade Nacional de La Plata, onde criou um Centro dedicado à investigação das civilizações antigas, clássicas e do Oriente Próximo. Seu conhecimento do mundo bíblico e seu interesse pelas línguas orientais o levaram a aprendê-las, considerando-as ferramentas fundamentais para a abordagem das fontes. Teve um destacado desempenho nessa universidade, onde foi eleito Decano, e com seu patrocínio participou como diretor da Missão Franco-Argentina em Aksha (Núbia). Mais tarde, transferiu suas atividades acadêmicas para a Universidade de Buenos Aires, encontrando no reitor Risieri Frondizi o apoio necessário para dar maior desenvolvimento aos estudos do Oriente Próximo antigo em Buenos Aires, seguindo os modelos de formação vigentes nas instituições mais importantes da época, como por exemplo, o Oriental Institute da Universidade de Chicago. Produto dessa época de ouro da Universidade de Buenos Aires, Rosenvasser pode estabelecer um quadro dos estudos que permitiram formar um par de gerações de especialistas, com enfoque nos estudos bíblicos e em egiptologia, visto que as línguas que ali se ensinaram foram o hebreu bíblico, o copta e o egípcio clássico.
Tive a honra de trabalhar sob sua direção por dois anos, nos quais, além do egípcio e da pesquisa a partir das fontes, me ensinou outras coisas que me serviram enormemente em minha carreira e que se vinculam diretamente com as atitudes necessárias à profissão. Para minha geração os exemplos eram valiosos, não para segui-los cegamente, mas sim porque instigavam às pesquisas e provocavam ações. Entre as que mais me marcaram estão a consistência de suas ações com seu pensamento, que lhe dava uma autoridade indiscutível a sua personalidade como intelectual; seu apaixonado entusiasmo com o saber e sua visão para superar o isolamento que significava ser egiptólogo na Argentina. Todavia, sobretudo me impressionou sua crença na excelência e confiança que tinha nos resultados que um trabalho sistemático poderia lograr resultados, o que o levava a ser um mestre ao mesmo tempo generoso e exigente.

MAAT: No artigo “El material epigráfico de Tell El-Ghaba”, a senhora trabalha com iconografia e epigrafia no contexto funerário. Diga-nos, como surgiu seu interesse nessa área temática, bem como se dá o processo de análise dessas fontes e quais as dificuldades encontrou em seu percurso?

Dra. María Violeta Pereyra: En realidad mi responsabilidad inicial en la Misión Arqueológica Argentina en Tell el-Ghaba fue la de vicedirectora y representante en el sitio de la directora, la Dra. Perla Fuscaldo. Yo había aprendido de la experiencia de Rosenvasser en las excavaciones de Aksha, en el marco del rescate de los monumentos de la Nubia, que era importante contar con un proyecto en Egipto. En primer lugar porque permitía trabajar con materiales originales y segundo porque facilitaba las interacciones con los especialistas de otros países en el propio campo. Vi la oportunidad en la convocatoria para el rescate de los monumentos del norte de Sinaí y aplique mis esfuerzos a ese proyecto que era netamente arqueológico. Como mi formación es en historia, tomé como línea de investigación la que me ofrecieron los materiales con inscripciones, que eran escarabajos y plaquetas, muchos criptográficos. Con una discípula abordamos el estudio documentándonos lo mejor posible y buscando ejemplos pertinentes para hacer un análisis comparativo y traducirlos. La bibliografía requerida la obtuvimos en bibliotecas especializadas de El Cairo, como la del IFAO o del ARCE, a las que concurríamos al término de cada campaña. Pero la posibilidad de dar mayor profundidad a ese estudio abortó con el inicio del proyecto de conservación de la tumba de Neferhotep en Luxor, que me permitió enfocarme en el universo funerario.

Na realidade minha responsabilidade inicial na Missão Arqueológica Argentina em Tell el-Ghaba foi a de vice-diretora e representante no sítio da diretora, a Dra. Perla Fuscaldo. Eu havia aprendido com a experiência de Rosenvasser nas excavações de Aksha, no âmbito do resgate dos monumentos da Núbia, que era importante contar com um projeto no Egito. Em primeiro lugar, porque permitia trabalhar com materiais originais e, segundo, porque facilitava as interações com os especialistas de outros países no próprio campo. Vi a oportunidade da convocação para o resgate dos monumentos do norte do Sinai e apliquei meus esforços a esse projeto que era puramente arqueológico. Como minha formação é em história, tomei como linha de investigação que me ofereceram os materiais com inscrições, que eram escaravelhos e placas, muitos pictográficos. Com uma discípula abordamos o estudo documentando o melhor possível e buscando exemplos pertinentes para fazer uma análise comparativa e traduzi-los. A bibliografia requerida obtivemos em bibliotecas especializadas do Cairo, como a da IFAO (Instituto Francês de Arqueologia Oriental) ou do ARCE (American Research Center in Egypt), às quais recorríamos ao término de cada campanha. Mas a possibilidade de dar maior profundidade a esse estudo terminou com o início do projeto de conservação da tumba de Neferhotep em Luxor, que me permitiu enfocar no universo funerário.

MAAT: Na sua tese de doutorado, “La secularización del poder durante el Imperio Nuevo egípcio: La epifania real em la ventana de aparición”, a senhora propõe investigar as modificações que surgem em torno da sociedade egípcia, quando da expansão territorial, sob o reinado dos tutmósidas, bem como as relações desses novos territórios com o poder real egípcio. Fale-nos sobre seu trabalho com as fontes arqueológicas e epigráficas que resultaram em sua tese.

Dra. María Violeta Pereyra: Enfoqué mi investigación doctoral en las escenas de recompensa real a los funcionarios y procuré analizar los elementos que las componen, en particular el collar shebyu que es un símbolo fundamental. Las fuentes que utilicé corresponden a las necrópolis de los nobles de Amarna, Tebas y Saqqara, y se limitan a la dinastía XVIII. Mi tesis es que la preponderancia de los beneficiarios de la expansión secularizó el poder y para contrarrestarla los soberanos buscaron formas de exaltar el poder simbólico del faraón. Por esa razón se desarrolló como un tema iconográfico específico el de la recompensa que el rey da sus funcionarios. Con antecedentes en el reinado de Amenhotep III (tumbas de Khaemhet y Kheruef), la escena alcanza su máximo desarrollo bajo Amenhotep IV/Akhenatón y continua hasta época ramésida. La evidencia de esos collares shebyw en enterramientos se limita a la tumba de Kha, mientras que solo dos ejemplares se encuentran en museos. Como tampoco hay referencias en escritos contemporáneos -con excepción del Edicto de Horemheb, mis fuentes primarias fueron las epigráficas del universo funerario, en cuyo análisis procuré articular los elementos iconográficos y las inscripciones. Para la interpretación también tuve en cuenta la disposición topográfica de las escenas en las tumbas y para decodificar el sentido de esos registros analicé algunos elementos que consideré verdaderos iconos: la representación de los collares shebyu y del palacio (ventana de aparición), y el significado del oro en el sistema de creencias. En cuanto a las inscripciones, resultaron esenciales para entender algunos cambios sociopolíticos que subyacen a las variantes registradas, que igualmente se encuentran en las escenas. Un caso especial es el de la recompensa de Ay en su tumba de Amarna (nº 25), en la que su esposa Tiy es recompensada junto a él. Esta escena debe vincularse con la de Neferhotep (TT49), que también documenta la recompensa a la esposa del propietario que, además, tiene como donante a Tiy, la reina de Ay. Otra diferenciación que llevé a cabo fue entre funcionarios en cuyas tumbas se había representado la escena de la recompensa propiamente dicha y los que habían sido retratados vistiendo los collares shebyu, que amplió el número de casos evidenciados y permitió establecer ciertas diferencias.

Enfoquei minha investigação doutoral nas cenas de recompensa real aos funcionários e procurei analisar os elementos que as compunham, em particular o colar shebyu, que é um símbolo fundamental. As fontes que utilizei correspondem à necrópole dos nobres de Amarna, Tebas e Saqqara e se limitam à XVIII Dinastia. Minha tese é que a preponderância dos beneficiários da expansão secularizou o poder e para o contrapor os soberanos buscaram formas de exaltar o poder simbólico do faraó. Por essa razão se desenvolveu como um tema iconográfico específico da recompensa que o rei dá aos seus funcionários. Com antecedentes no reinado de Amenhotep III (tumbas de khaemhet e Kheruef), a cena alcança seu máximo desenvolvimento sob Amenhotep IV/Akhenatón e continua até a época ramessida. As evidências desses colares shebyw em enterramentos se limita à tumba de Kha, enquanto que só dois exemplares se encontram em museus. Como tampouco há referências em escritos contemporâneos – com exceção do Edito de Horemheb, minhas fontes primárias foram as epigráficas do universo funerário, em cuja análise procurei articular os elementos iconográficos e as inscrições. Para a interpretação também levei em consideração a disposição topográfica das cenas nas tumbas e para decodificar o sentido desses registros analisei alguns elementos que considerei verdadeiros ícones: a representação dos colares shebyw e do palácio (janela de aparição), e o significado do ouro no sistema de crenças. Enquanto as inscrições resultaram essenciais para entender algumas mudanças sociopolíticas que subjazem nas variantes registradas, que igualmente se encontram nas cenas. Um caso especial é o da recompensa de Ay em sua tumba de Amarna (nº25), em que sua esposa Tiy é recompensada junto a ele. Esta cena deve vincular-se com a de Neferhotep (TT49), que também documenta a recompensa à esposa do proprietário que, também, tem como doadora Tiy, a rainha de Ay. Outra diferenciação que levei a cabo foi entre funcionários em cujas tumbas se havia representado a cena da recompensa propriamente dita e os que haviam sido retratados portando os colares shebyw, que ampliou o número de casos evidenciados e permitiu estabelecer certas diferenças.

MAAT: Vários estudiosos do Egito Antigo se interessam em estudar o período Amarniano, o que fez emergir na Academia uma série de hipóteses e explicações sobre temáticas relacionadas, principalmente, a figura do Amenhotep IV e do culto a Aton. Atualmente, a senhora acha que a difusão nas mídias digitais, como em documentários, bem como na literatura não acadêmica, contribuíram para o desenvolvimento dessas visões?

Dra. María Violeta Pereyra: Me parece que el período amarniano debe estudiarse en el contexto del proceso histórico de la dinastía XVIII y que las hipótesis y explicaciones de los cambios atestiguados deberían ser contrastados con otros verificados en ese proceso de mediano tiempo. Solo así es posible entender el sentido histórico del reinado.
En cuanto a la diseminación de materiales que circulan por fuera del ámbito académico creo que muchas veces son engañosos. Con frecuencia acentúan los aspectos del período que marcan lo que puede considerarse discontinuo e innovador (en particular en lo religioso y en las expresiones estéticas) y olvidan otros aspectos que revelan que el reinado Akhenaton fue una coyuntura, parte de un proceso y resultante de la historia de la dinastía. De lo contrario, se ofrecen reconstrucciones que son muy arbitrarias y discutibles en cuanto a su valor fuera de la ficción, sobre todo por medio de pseudo-documentales.

Parece-me que no período amarniano deve-se estudar o contexto do processo histórico da dinastia XVIII e que as hipóteses e explicações das mudanças atestadas deveriam ser contrastadas com outras verificadas nesse processo de média duração. Só assim é possível entender o sentido histórico do reinado.
Quanto à disseminação de materiais que circulam por fora do âmbito acadêmico, creio que muitas vezes são enganosos. Com frequência acentuam os aspectos do período que marcam o que pode se considerar descontínuo e inovador (em particular no religioso e nas expressões estéticas) e esquecem outros aspectos que revelam que o reinado de Akhenaton foi uma conjuntura, parte de um processo e resultante da história da dinastia. Do contrario, se oferecem reconstruções que são muito arbitrárias e discutíveis quanto ao seu valor fora da ficção, sobretudo por meio de pseudodocumentários.

MAAT: Considera-se que o desenvolvimento de pesquisas relacionadas à História Antiga no Brasil está em emergência, isso devido a razões específicas, como o crescimento da produção acadêmica sobre a área, apesar do evidente distanciamento dos estudiosos em relação às fontes materiais. A senhora considera que o mesmo pode ser dito ao contexto da Argentina? Como se processa os estudos da Antiguidade no país? Quais dificuldades acredita ainda serem pungentes?

Dra. María Violeta Pereyra: Creo que el desarrollo de las investigaciones relacionadas con la historia antigua en Brasil y en Argentina han tenido en el pasado y tienen en la actualidad características diferentes. Solo conozco la situación de unas pocas universidades brasileras y creo que la mayor producción académica es un factor interesante, como también lo es la estrecha vinculación de algunos investigadores del Brasil con centros europeos de excelencia que permiten retroalimentar la disciplina. Me parece igualmente muy destacable la formación de posgrado que algunos jóvenes adquieren en el exterior y que luego revierte en sus lugares de origen cuando regresan. Esto es interesante porque puede ampliar y diversificar la orientación de los estudios, enriqueciéndolos. En Argentina me parece que nos mantenemos más aislados, a pesar de contar con una larga tradición iniciada por Rosenvasser en el siglo XX. Las condiciones respecto de las fuentes materiales nos acerca más, aunque en Brasil hay colecciones egipcias importantes, en particular la del Museo Nacional, que es la mayor de Latinoamérica. En Buenos Aires y La Plata se continúa con la formación de posgrado en historia egipcia articulando la enseñanza de la lengua egipcia clásica con otras disciplinas, aunque no todos los investigadores adhieren a esa propuesta. En mi opinión los abordajes teóricos y con herramientas provistas en particular por la antropología me parecen interesantes, pero pueden conducir a extravíos cuando se sobrevaloran en relación a las fuentes primarias. En la actualidad las comunicaciones proveen recursos que están disponibles para procurar subsanar al menos parcialmente este problema, que considero el más grave. Pero además elegir en forma realista una temática de investigación es igualmente importante. Creo que hay que buscar caminos alternativos para conciliar lo que se quiere investigar con lo que en verdad se puede volver accesible.

Creio que o desenvolvimento das pesquisas relacionadas com a História antiga no Brasil e na Argentina tiveram no passado e têm na atualidade características diferentes. Só conheço a situação de umas poucas universidades brasileiras e acredito que a maior produção acadêmica é um fator interessante, como também o é a estreita vinculação de alguns alunos pesquisadores do Brasil com centros europeus de excelência, que permitem retroalimentar a disciplina. Parece-me muito destacável a formação de pós-graduação que alguns jovens adquirem no exterior e que logo revertem aos seus lugares de origem quando retornam. Isto é interessante porque pode ampliar e diversificar a orientação dos estudos, enriquecendo-os. Na Argentina me parece que nos mantemos mais isolados, apesar de contarmos com uma extensa tradição iniciada por Rosenvasser no século XX. As condições relacionadas às fontes materiais nos caracteriza mais, embora o Brasil tenha coleções egípcias importantes, em particular a do Museu Nacional, que é a maior da América Latina. Em Buenos Aires e La Plata se continua com a formação de pós-graduação em história egípcia articulando o ensino da língua egípcia clássica com outras disciplinas, embora nem todos os investigadores tenham adotado essa proposta. Em minha opinião as abordagens teóricas e com ferramentas fornecidas em particular pela antropologia me parecem interessantes, mas podem conduzir a desvios quando se supervalorizam em relação às fontes primárias. Na atualidade as comunicações provêm recursos que estão disponíveis para retificar ao menos parcialmente este problema, que considero o mais grave. Mas também escolher de forma realista uma temática de investigação é igualmente importante. Acredito que temos que buscar caminhos alternativos para conciliar o que se quer pesquisar com o que na verdade se podem fazer acessíveis.

MAAT: Que significados a senhora atribui ao trabalho de campo por parte dos investigadores (historiadores e arqueólogos) para o desenvolvimento dos estudos sobre o Egito Antigo? Fale-nos de sua experiência no “Conservation Project of TT49 Neferhotep”.

Dra. María Violeta Pereyra: El trabajo de campo se concibe hoy día como interdisciplinario y esto trasciende al estudio del antiguo Egipto. En mi caso personal me dio una experiencia muy valiosa porque en primer lugar me permitió entender mejor el sentido de algunas lecturas que hacía en biblioteca y ponderar aspectos en los que hasta ese momento no había pensado. Por otra parte, en el sitio la interacción entre especialistas de diversas disciplinas (arqueólogos, historiadores, antropólogos, conservadores) es intensa y muy estimulante porque obliga a considerar perspectivas diferentes y permite aprovechar los saberes de los otros en beneficio del todo; amplia la mirada y con ello las posibilidades de hacerse preguntas más agudas. En el desarrollo del proyecto de Luxor, las observaciones de los conservadores resultaron en ocasiones tan interesantes como los planteos de análisis espaciales propuestos desde la arqueología. El proyecto de Investigación y Conservación de la tumba de Neferhotep es un buen ejemplo de cómo es posible aprovechar las fortalezas específicas de los miembros del grupo de trabajo, formado por: historiadores argentinos, arqueólogos brasileros, italianos y argentinos y conservadores alemanes. Cada uno tiene saberes que ofrecer al grupo porque nuestras formaciones son diferentes y eso, además de obligar a mantener la mente abierta da seguridad a la hora de discutir resultados.

O trabalho de campo se concebe hoje em dia como interdisciplinar e isto transcende ao estudo do Egito antigo. Em meu caso pessoal me deu uma experiência muito valiosa porque em primeiro lugar me permitiu entender melhor o sentido de algumas leituras que havia feito na biblioteca e ponderar aspectos que até aquele momento não havia pensado. Por outra parte, no sítio a interação entre especialistas de diversas disciplinas (arqueólogos, historiadores, antropólogos, conservadores) é intensa e muito estimulante porque nos obriga a considerar perspectivas diferentes e permite aproveitar os saberes dos outros em benefício do todo; amplia o horizonte e com ele as possibilidades de fazer perguntas mais agudas. No desenvolvimento do projeto de Luxor, as observações dos conservadores resultaram em ocasiões interessantes como os projetos de análise espacial, propostos pela arqueologia. O projeto de Pesquisa e Conservação da tumba de Neferhotep é um bom exemplo de como é possível aproveitar os pontos fortes específicos dos membros do grupo de trabalho, formado por: historiadores argentinos, arqueólogos brasileiros, italianos e argentinos e conservadores alemães. Cada um tem saberes a oferecer ao grupo porque nossas formações são diferentes e isso, além de obrigar a manter a mente aberta dá segurança na hora de discutir os resultados.

MAAT: Que considerações a senhora poderia nos informar sobre sua percepção quando no início de seus estudos sobre a Antiguidade egípcia, bem como as considerações que possui no momento atual sobre sua atividade. Comente acerca das pesquisas que desenvolve recentemente. Há algum projeto que planeja desenvolver?

Dra. María Violeta Pereyra: Cuando me inicié en la investigación en egiptología las condiciones de la universidad eran muy diferentes. El Instituto de Historia Antigua Oriental tenía al Dr. Rosenvasser como su Director y contaba con siete investigadores. Si bien las oportunidades de obtener una beca de estudio eran muy pocas, la universidad ofrecía cursos y seminarios para especializarse que eran muy específicos y gratuitos, y las bibliotecas se mantenían relativamente actualizadas. Hoy las condiciones para la formación de posgrado ha perdido especificidad en el área y los recursos para la investigación son escasos, limitándose al financiamiento que un investigador puede obtener presentando proyectos cuya continuidad no está asegurada ni es suficiente porque el sistema de evaluación tiene muchos vicios. Las investigaciones a las que me encuentro dedicada desde hace años se relacionan con la tumba de Neferhotep y la interpretación de su programa decorativo en particular. Me interesa entender su sintaxis en la escala del monumento y de la necrópolis, y en sus relaciones con su contexto temporal.

Quando iniciei a pesquisa na egiptologia as condições da universidade eram muito diferentes. O Instituto de História Antiga Oriental tinha o Dr. Rosenvasser como Diretor e contava com sete pesquisadores. Se bem que as oportunidades de obter uma bolsa de estudo eram muito poucas, a universidade oferecia cursos e seminários para especialização que eram muito específicos e gratuitos, e as bibliotecas se mantinham relativamente atualizadas. Hoje as condições para a formação de pós-graduação tem perdido especificidade na área e os recursos para a pesquisa são escassos, limitando-se ao financiamento que um pesquisador pode obter apresentando projetos cuja continuidade não está assegurada nem é suficiente porque o sistema de avaliação contém muitos vícios. As pesquisas em que estou dedicada desde muitos anos se relacionam à tumba de Neferhotep e à interpretação de seu programa decorativo em particular. O que me interessa é entender sua sintaxe na escala do monumento e da necrópole, e em suas relações com seu contexto temporal.

MAAT: Na pós-graduação em História da UFRN, os interessados devem desenvolver um tema, mas este deve ser orientado, especificamente, sob a ótica do espaço. Em um artigo de 2012, publicado pela Revista Mundo Antigo, intitulado “Espacio y Tiempo ritual em la antigua Tebas. Consideraciones em torno a su representación.”, a senhora desenvolve uma problemática referente as espacialidades no contexto funerário egípcio do Novo Império. Como considera a abordagem dos temas da Antiguidade, principalmente, do Egito Antigo, vistos pela perspectiva espacial? O que acha dos recentes trabalhos que desenvolvem esse aspecto?

Dra. María Violeta Pereyra: Para la decodificación del registro epigráfico creo que la espacialidad es una categoría a tener en cuenta para entender el sentido de lo que fue representado (figurativa o lingüísticamente). La disposición de las escenas e inscripciones en las paredes del monumento, su organización en secuencias y las relaciones que establecen entre sí son elementos que se utilizaron para ‘componer’ el mensaje a transmitir. Identificar las estructuras y su sentido permite articularlas y entender su significado pleno. Creo que el trabajo de Philippe Derchain sobre el templo de Edfú, de 1962, y los abordajes iniciados por Roland Tefnin a fines de la década de 1970 han mostrado una vía de acceso a la interpretación de la decoración parietal de los monumentos que es muy rica y que ha sido solo parcialmente explorada.

Para a decodificação do registro epigráfico, acredito que a espacialidade é uma categoria a ter em conta para entender o sentido do que foi representado (figurativa ou linguisticamente). A disposição das cenas e inscrições nas paredes do monumento, sua organização em sequências e as relações que estabelecem entre si são elementos que se utilizam para ‘compor’ a mensagem a transmitir. Identificar as estruturas e seu sentido permite articulá-las e entender seu significado pleno. Creio que o trabalho de Philippe Derchain sobre o templo de Edfu, de 1962, e as abordagens iniciadas por Roland Tefnin em fins da década de 1970 tem mostrado uma via de acesso à interpretação da decoração parietal dos monumentos que é muito rica e que tem sido só parcialmente explorada.

MAAT: Para concluir, o Maat pede que deixe uma mensagem para os interessados no tema “Antiguidade”, estudantes e professores.

Dra. María Violeta Pereyra: Asumamos que es el desarrollo de los estudios de la antigüedad es posible en Latinoamérica, además de ser fascinante; es la base sobre la cual llevar a cabo un trabajo con pretensiones de excelencia.

Assumamos que o desenvolvimento dos estudos da antiguidade é possível na América Latina, além de ser fascinante; é a base sobre a qual realizar um trabalho com pretensões de excelência.

O MAAT agradece em nome de todos os leitores, a sua disponibilidade em responder nossas perguntas.

Entrevista realizada em 2017.