No limiar do tempo: apontamentos acerca da destruição causada pelo ISIS e a preservação do patrimônio histórico-cultural antigo

Texto do Ms. Ruan K. P. Silva (MAAT/UFRN)¹

Daesh². Os meios de violência e intratabilidade utilizados visam aterrorizar o Ocidente, recrutar novos adeptos e subjugar as populações de áreas que estão sob seu controle. Mas não deixa de ameaçar (e ferir gravemente) a cultura e o patrimônio histórico dos povos antepassados do Oriente.
A destruição de sítios, artefatos, monumentos e museus não é uma novidade em uma região que esteve frequentemente envolvida em conflitos militares. Segundo Irina Bokova, diretora-geral da UNESCO, o que o Daesh está promovendo é diferente, é uma “limpeza cultural” de símbolos e ícones pré-islâmicos. O patrimônio histórico-cultural é usado como parte de uma guerra simbólica: se por um lado há demonstrações de poder e desmoralização dos inimigos mediante as demolições, explosões e apagamentos de símbolos culturais; por outro, houve a formação de uma “burocracia de espólios de guerra”, responsável por gerenciar a venda de artefatos no Mercado Negro, movimentando quantias consideráveis para financiar suas ações de guerra.
Para tentar deter essas ações, em 2015, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução condenando o aproveitamento e a destruição de patrimônios culturais do Daesh no Iraque e na Síria. O Congresso dos EUA, em consonância com a resolução da ONU, aprovou um projeto de Lei de Proteção e Preservação da Propriedade Cultural Internacional com a finalidade de proibir a importação de artefatos da Síria e deter o fluxo do comércio de antiguidades do Daesh. No entanto, essas ações ainda são insuficientes.
Mossul. Em fevereiro de 2015, jornais do mundo inteiro noticiaram alarmantes relatos de destruição de estátuas e artefatos dos Impérios de Assíria e de Acádia, que faziam parte da coleção do Museu de Mossul. Dois anos depois da invasão ao Museu de Mossul pelo Daesh o que se sabe é que os danos são incomensuráveis: em meio a contraofensiva para a retomada de Mossul, constatou-se que os artefatos quando não foram destruídos ou contrabandeados, resistiram com muitos danos. A destruição promovida pelo Daesh pode ser verificada em outros locais, como a Biblioteca Central da Universidade de Mossul, que teve o prédio e todos os livros queimados, além do saque e destruição de aproximadamente 100 mil manuscritos antigos raros.

Preservação. No fim de março de 2017, a Aliança Internacional para a Proteção do Patrimônio em Áreas de Conflito (Aliph) criou um fundo global para a arrecadação de cerca de 75 milhões de dólares, liderado por França e Emirados Árabes Unidos, e presidida pelo bilionário americano Thomas Kaplan. Além disso, como alternativa para proteger o patrimônio antigo do extremismo do Daesh, dez países – Iraque, Irã, Egito, Grécia, Itália, China, Índia, Bolívia, Peru e México – assinaram no fim de abril de 2017, em Atenas, o “Fórum das Civilizações Antigas”, que pretende promover o diálogo frente ao fanatismo, e a cultura em face do terrorismo.
Frente à destruição que urge no horizonte do patrimônio histórico-cultural oriental, surgem iniciativas acadêmicas de grande importância. O Google Cultural Institute tem reunido esforços internacionais para documentar o patrimônio cultural oriental através do avanço da tecnologia. O Centro Americano de Pesquisas Orientais (ACOR), por meio do “ACOR Library Photographic Archive”, tem se preocupado em catalogar, digitalizar e construir um catálogo fotográfico de alta qualidade para a preservação do patrimônio visual da Jordânia. Outro catálogo de imagens disponível aos estudiosos é o Oxford Archaeology Image Database (OAID) – constituído por Tim Clayden (Wolfson College, Oxford) com o apoio do Lorne Thyssen Research Fund –, que encoraja o registro e a preservação visual do patrimônio do Iraque e da Síria. O conjunto de fotos reunidas por ambos os projetos são publicadas online e em mídias sociais, e pretende fornecer um acervo valioso disponível para acadêmicos, pesquisadores e o público em geral.
A perda trágica de patrimônio antigo na Síria, no Iraque e em diversas outras regiões do Oriente por conta das ações do Daesh tem atraído a atenção de diversos órgaos e instituições. Dentre eles, o World Monuments Fund Britain procura atuar na preservação física do patrimônio cultural, consideradando-o como inestimável para o desenvolvimento cultural, social e econômico a longo prazo.

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Inscrições cuneiformes do rei assírio Esharhaddon (c. 672 a.C.). Crédito: Jérémy André.

Descobertas. Dos escombros da destruição também emergem descobertas que foram escondidas pelas areias do tempo. Abaixo das ruínas da tumba do profeta Jonas, em Nínive, foram encontrados túneis escavados e, por meio deles, estátuas de deidades e painéis de mármore com inscrições cuneiformes do rei assírio Esharhaddon (c. 672 a.C.). Além disso, constatou-se a descoberta de um palácio assírio inexplorado até então: o palácio foi construído por Senaqueribe, renovado e expandido por Esarhaddon (681-669 aC), e renovado novamente por Assurbanipal (669-627 a.C.), tendo sido parcialmente destruído durante o saque à Nínive em 612 a.C. O fato é que a descoberta desse novo palácio assírio traz à tona uma quantidade significativa de informações que até então nem se imaginava que existissem.
Recentemente também foi encontrada uma tumba assíria na cidade de Erbil (antiga Arbela), contendo dez esqueletos e aproximadamente quarenta jarros intactos, que datam do período neoassírio (séc. IX – VII a.C.). Dishad Marf Zamua (Salahaddin University, Erbil) especula que a tumba tenha sido de uma família pertencente à elite assíria. Porém, ainda não há estudos acadêmicos publicados acerca de tal descoberta.
Infelizmente as recentes destruições realizadas pelo Daesh em Nimrud, Nínive e Khorsabad têm dificultado grandemente as pesquisas e escavações nas antigas capitais assírias, no entanto, tem possibilitado pesquisas em outras importantes cidades mesopotâmicas, como Erbil – que fora defendida da ofensiva do Daesh com sucesso – e que possibilita estudos mais aprofundados sobre a história mesopotâmica.

Conclusão. Os sítios culturais seguem sendo uma das principais vítimas na guerra na Síria e no Iraque. Como afirma Bokova, destruir as identidades das pessoas, destrói sua história, destrói as razões para uma futura reconciliação e paz. Assim, o reconhecimento do papel do patrimônio pode oferecer esperança e orgulho durante a recuperação física, social e cultural de um povo pós-crise. É nesse ponto que a História, assim como a Arqueologia e as demais ciências humanas e sociais, pode contribuir sobremaneira para a formação de um mundo mais tolerante e pacífico que, oxalá, não tarde a chegar.

Notas:

¹ Mestre em História (PPGH/UFRN). Membro do Núcleo de Estudos de História Antiga (MAAT/UFRN).

² Também dito Da’ish ou ISIS. Em árabe, ad-Dawlat al-Islāmiyah fī al-ʿIrāq wa sh-Shām. No ocidente é conhecido como Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), ou Estado Islâmico do Iraque e da Síria (EIIS,). Trata-se de uma organização jihadista islamita de orientação wahhabita que opera no Oriente Médio, e afirma autoridade religiosa sobre todos os muçulmanos do mundo, aspirando tomar o controle de regiões com maioria islâmica, a começar pela região do Levante, que inclui Jordânia, Israel, Palestina, Líbano, Chipre e Hatay (sul da Turquia).

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